(google images)A SAPINHA DESASTRADA
(Pro Clóvis)
- Ela é muito jeitosa! Ela é tão jeitosa! É a sapinha mais jeitosa de Verde Charco!
Quem vivia dizendo isso era o Sapinho Narigudo. Ironia pura, justamente porque sua amiga tão "jeitosa” era justamente o contrário disso.
E ela vivia pisando nos astros, desastrada, quebrando pratinhos, espatifando copos, matando as plantinhas com água demais ou nenhuma água, se batendo nas pedras, se arranhando em espinhos, se esfolando em galhos.Um horror, uma falta de jeito só.
Ela vivia rindo disso, ironizando a ironia dele: sou jeitosa,mesmo, sou tão jeitosa que não tenho mesmo jeito!
Seu momento favorito do dia era quando se sentava na sua pedra favorita, na beira do charco, para olhar o pôr-do-sol, uma hora tão tristinha, a hora que não é: não é dia,nem é noite. Depois dos tombos, esfoladuras e quebra-quebras de seu dia, três curativos dum lado, três baind-aids do outro, ela gostava desse momento pra relaxar, e depois acompanhar os outros sapinhos na cantoria da noite.
Mas numa tarde de muita chuva, chateada por saber que não ia ter pôr-de-sol bonito pra ver, ela foi assim mesmo pra sua pedra favorita. Sentou lá, sozinha, mas estava tudo muito molhado, escorregadio e logo ela, tão jeitosa, ploft!, caiu de lá de cima. E logo ela, ploft!, sem ter onde se segurar, deu, ploft!, com sua linda carinha batráquia na ponta de uma pedra e, ploft!, ali ficou, gemendinho, gemendinho, pobrezinha, sem nenhum outro sapinho por perto pra ajudar.
A sapinha desastrada, que pisava nos astros, sonhando outros mundos, voltou se arrastando, sozinha, pra sua folha de vitória-régia, sem pedir ajuda pra ninguém:
- A gente se machuca toda, e ainda vai ter que ouvir croac-croac de gozação.O Narigudo vai dizer, com certeza, que jeitosa, que jeitosa que ela é! Ninguém merece, por mais desastrada que seja!
Sua carinha ficou toda inchada, toda roxa. Sua patinha quase quebrou, e tudo doía, doía muito. Mas ela, acostumada a se cuidar sozinha, ficou em sua folha, quietinha, quietinha, quietinha, esperando a dor passar.
Não foi ver o pôr-do-sol, nem pisar nos astros de outros mundos, sonhados por ela, sonhados por outros.
Quietinha na sua folha de vitória-régia, passou a olhar com cuidado e atenção tudo que a rodeava, o seu mundo real.
Os amigos de verdade, até mesmo o Sapinho Narigudo, vinham saber dela todo dia. E ela viu quem era amigo de verdade, e quem não era.
Como teve que ficar em casa todo dia, o dia todo, viu que a casa era bonita, que gostava de estar nela e cuidar dela, para nela receber os amigos de verdade.
Viu também que não precisava da pedra favorita, nem da tristezinha do por-do-sol. Podia sonhar pores-de-sol, cada um mais bonito ou triste que o outro; podia inventar pores-de-sol, de cores muito diferentes, lavanda, verdes, cor de burro quando foge; podia escrever pores-de-sol...
E podia continuar pisando nos astros, desastrada, três curativos dum lado, três band-aids do outro, sempre jeitosa, tão jeitosa, a sapinha mais jeitosa de Verde Charco!
(Floripa,3 de março de 2009)
